Amor das palavras

 

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis

que só vêm no dicionário.

O dicionário ensinou-me mais um atributo

para o sabor de teus lábios.

São doces como sericaia.

Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será

comparável à das huris prometidas.

No dicionário aprendi que o meu verso é

por vezes fabordão e sesquipedal.

Nele existe o meu retrato moral (que

não confesso) e o de meus inimigos

rasteiros como seramelas sepícolas

e intragáveis como hidragogos destinados à comua.

O dicionário, as palavras, irritam muita gente.

Eu gosto das palavras com ternura

e sinto carinho pelo dicionário,

maciço e baixo e pelo seu casaco, azul

desbotado, de modesto erudito.

 

Rui Knopfli

 

 

 

Al cabo

 

Al cabo, son muy pocas las palabras

que de verdad nos duelen, y muy pocas

las que consiguen alegrar el alma.

Y son también muy pocas las personas

que mueven nuestro corazón, y menos

aún las que lo mueven mucho tiempo.

Al cabo, son poquísimas las cosas

que de verdad importan en la vida:

poder querer a alguien, que nos quieran

y no morir después que nuestros hijos.

 

Amalia Bautista

 

 

 

Tragam-me um homem que me levante com

os olhos

que em mim deposite o fim da tragédia

com a graça de um balão acabado de encher

tragam-me um homem que venha em baldes,

solto e líquido para se misturar em mim

com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se

leve, leve, um principiante de pássaro

tragam-me um homem que me ame em círculos

que me ame em medos, que me ame em risos

que me ame em autocarros de roda no precipício

e me devolva as olheiras em gratidão de

estarmos vivos

um homem homem, um homem criança

um homem mulher

um homem florido de noites nos cabelos

um homem aquático em lume e inteiro

um homem casa, um homem inverno

um homem com boca de crepúsculo inclinado

de coração prefácio à espera de ser escrito

tragam-me um homem que me queira em mim

que eu erga em hemisférios e espalhe e cante

um homem mundo onde me possa perder

e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos

atirando-me à ilusão de sermos duas

novíssimas nuvens em pé.

 

 

Cláudia R. Sampaio

 

La courbe de tes yeux 

 

 

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,

Un rond de danse et de douceur,

Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,

Et si je ne sais plus tout ce que j’ai vécu

C’est que tes yeux ne m’ont pas toujours vu.

 

Feuilles de jour et mousse de rosée,

Roseaux du vent, sourires parfumés,

Ailes couvrant le monde de lumière,

Bateaux chargés du ciel et de la mer,

Chasseurs des bruits et sources des couleurs,

 

Parfums éclos d’une couvée d’aurores

Qui gît toujours sur la paille des astres,

Comme le jour dépend de l’innocence

Le monde entier dépend de tes yeux purs

Et tout mon sang coule dans leurs regards.

 

 

Paul Eluard