Curso de retórica

 

Entra pelo portão da sintaxe, e atravessa

o bosque da gramática com as mãos do verbo,

rasgando o caminho que te irá conduzir à última

frase. Depois, recomeça tudo, embora o portão

esteja aberto, e não precises já de o empurrar

para descobrir um chão de pontos e de vírgulas,

fazendo ressoar os teus passos numa abóbada

de sinónimos. Apanha as palavras caídas, e

leva-as para o fundo do dicionário, onde

as irás juntar a um adubo de sílabas. Vê-las-ás

germinar na primavera do verso, e colherás

as suas flores no jardim da retórica, entre

estátuas de deuses e cascatas. Depois, regressa

à página de onde saíste, e fecha o portão.

 

 

Nuno Júdice

 

 

 

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damos nome às coisas
que reconhecemos.

o que só existe dentro de nós
também tem nome
porque para se ter nome não
é preciso ter visto o sol.

há nas profundezas mais fundas
peixes às escuras
com luz própria.

quando alguém descobre um destes seres,
faz uma festa e compõe
um nome em latim.

 

 

André Tecedeiro

 

 

 

 

 

No início

 

No início
não sabemos
que não podemos tudo.
É o corpo que nos ensina
Agarramos com as mãos
a irresistível chama
e a queimadura do fogo
enche-nos de surpresa

Subimos à árvore maior
para voarmos como pássaros
e dói-nos mais não podermos
do que a perna partida

No início não sabemos
que entre o desejo e o corpo
há um desencontro
a eterna fome
a perpétua busca.

 

 

Pedro Santo Tirso